E Vice-Versa II.

Água
Benta
Dona
Madame
Senhora
Nossa
Vossa
Excelência
Primorosa
Ótima
Boa
Beleza
Natural
Mente
Cabeça
Tronco
Raiz
Terra
Marte
Vênus
Afrodite
Deusa
Rainha
Princesa
Sapo
Príncipe
Encantado
Surpreso
Segredo
Chave
Porta
Mala
Carro
Estrada
Viagem
Espacial
Gravidade
Zero
Um
Dois
Três


Agora
Depois
D’amanhã
Hoje
Ontem
Passado
Futuro
Presente
Brinquedo
Bola
Quadrado
Lado
A
Lado
Frente
Trás
Traz
Favor
Obrigado
Aplausos
Show
Uísque
Cerveja
Água

Chateação.

- Olá! Eu sou o Fábio!
- Fábio! Achei que não viria!
- Eu lhe disse!
- Prazer! Ana Carolina!
- Eu sei! A gente se conheceu no chat do Terra.
- É mesmo! Você é mais bonito pessoalmente!
- Imagina! São seus olhos!
- Desculpa, mas eu menti pra você!
- O que? Quer dizer que você não é...
- Claro que sou! Eu menti quando disse que achava que você não viria! Eu sabia que viria!
- Claro! Desde a primeira vez que teclamos, eu me apaixonei! Você era linda, sem mesmo nunca ter te visto!
- Fá... Posso te chamar de Fá, né?
- Claro, Aninha!
- Fá, eu não sei se você está nessa apenas por brincadeira, mas eu adorei o seu jeito, o seu sorriso, o brilho dos seus olhos e até mesmo a sua voz quando lhe adicionei no meu MSN!
- É incrível, Aninha! Nunca acreditei nessa baboseira de encontro pós-internet! Mas comigo foi igual, sabe, esse sentimento!
- Sabe o que é mais estranho? Quando eu te vi, ao vivo, parecia que te conhecia há anos!
- Eu sei! Parece que você esteve presente em minha vida nos últimos meses!
- Bom, se bate-papo pelo computador pode ser considerado relacionamento, eu estive sim!
- Não sei como dizer, mas eu acho que... que... que eu te amo!
- Fá, também não sei como dizer, mas...
- Diga, Aninha! Diga!
- Desculpa! Mas eu não sou a Aninha! Na verdade a Aninha é aquela garota, ali, de vermelho! Ela me pediu pra vir te conhecer pessoalmente, sabe como é, caso você não fosse a pessoa que ela esperasse!
- Aninha, quero dizer...
- Joice!
- Joice, desculpa! Mas eu também não sou o Fábio! Ele quem é! Meu nome é Ricardo!
Risos.
- Tudo bem! Mas agora preciso ir, preciso dizer à minha amiga que o Fábio não é do tipo dela!
- Eu preciso dizer o mesmo para o Fá!
- Foi um prazer!
- O prazer foi todo do Fábio!

O Tempo Só Pensa Nele.

Mesmo sabendo que é tolice, estive pensando sobre o futuro. Como serão os anos 2.052? Se minha saúde permitir e se Deus quiser, estarei com setenta anos de vida. Será que verei carros engarrafados pelos céus? Será que minha pele resistirá a 10 cirurgias plásticas? Só peço e torço para que o Viagra não se torne uma droga e o governo proíba suas vendas. Mas se pensar somente dessa forma, serei egoísta demais. Quero saber qual será o mundo que meus filhos, netos e bisnetos terão.

Sonho em ver crianças ao meu redor, eu quero muito vê-los correndo para cima e para baixo. Mas temo pelo que espera por eles. Acho o máximo o pai que consegue conciliar trabalho e família, mesmo sabendo que os que conseguem têm uma grande ajudinha da mãe ou do outro pai, sabe como é, nos dias de hoje. Mas será que conseguirei tê-los em minhas mãos até atingirem a maioridade ou não ficarei de saco cheio e largarei tudo? Não. Acredito que serei um pai perfeito, como todos os pais pensam e muitos filhos duvidam.

O tempo só faz piorar essa relação. Todo dia que passa, inventam algo mais perigoso do que as famosas e tranqüilas corridas de rolimã. Como farei para evitar que meu filho se meta num racha? Tudo bem. A questão é a educação. E quem garante que o melhor amigo do garoto não seja um traficante ou um psicopata? E como vou prendê-lo em casa e obrigá-lo a sentar na frente do computador pelo resto do tempo que não estiver na escola? Eu não quero isso. Não gostaria que isso acontecesse comigo. Quero ir assistir as suas partidas de futebol, mas já pensou se um moleque mais velho quebrar a sua perna? E depois do colégio, quando entrar para a faculdade? Será que ele estará preparado para encarar uma carreira (profissional, por favor) e se tornar um homem bem-sucedido que assegure o seu futuro e o meu. Quem sabe? E se ele se tornar um oceanógrafo fracassado e mergulhar na bebida? E se os números de desempregados quadriplicarem e não conseguir, sequer, vaga para gari?

Pensando bem, é melhor eu me tornar aquele egoísta e pensar só em mim, porque, senão, corro o risco de envelhecer e ver os meus filhos, netos e bisnetos nem se importarem com as minhas preocupações e, talvez, nem ver as festas, os carros, as namoradas, as baladas, a bagunça, a zona e a alegria deles.

O Ed! Quem Diria?

Edmilson é um homem bem-sucedido, técnico em informática, trabalha mais de oito horas por dia, pai de um moleque levado de seis anos de idade e uma adorável mocinha de apenas três e casado com uma mulher linda e simpática. O Ed! Quem diria? Eu jurava que ele seria incapaz de namorar alguém, jurava que seria incapaz de completar a maioridade. Eu estudei com o Ed no colégio. Um sujeito simples, meio abobado, mas feio por inteiro. Um garoto quieto, mas impaciente. Todas as piadinhas mais sacanas que rolavam na sala de aula durante a matéria da Luciana, professora de português, vinham das suas idéias e eram expostas pelas bocas dos meninos mais extrovertidos.
- Fessora, a senhora conhece a Paula do quarto ano?
- Paula... Paula... Qual é o sobrenome?
- Dentro, Paula Dentro!
- Vou checar na minha lista de chamadas mais tarde!
A sacanagem era antiga, mas a turma toda ria sem parar a cada vez que um aluno qualquer soltava a piada vinda do Edmilson. Dava pra sentir um pouquinho de inveja nos seus olhos, afinal, as meninas adoravam os meninos mais falantes, e ele, sempre calado, pensava: um dia saberão que sou eu o cabeça da turma e implorarão minhas atenções. Mas que nada, sempre que tentava soltar uma palavra em público era possível ouvir a profunda respiração das crianças mais ranhentas. Ed não se dava bem com os colegas dessa forma, mas sempre andava acompanhado e nunca foi solitário. Até o dia em que se apaixonou pela Marta, aluna do terceiro ano. Calou-se ainda mais e suas piadas começaram a ficar românticas e a perder a graça.
- Fessora, você tá parecendo uma rosa desabrochando!
- Obrigada, Daniel!
- O que? O que eu disse pra ela, Edinho?
Então, os meninos, furiosos por se sentirem tolos ao dizer aquelas bobagens, ignoraram o Edinho por um longo período. Tanto fazia. Ele estava perdidamente gamado pelos cabelos loiros e nariz arrebitado da Marta de Albuquerque Queiroz, era assim como ela gostava de ser chamada. Vinha de uma família tradicional e sentia-se importante entre os alunos da escola. Coitado do Edmilson. Durante alguns semestres e provas que aborreciam seus pais, foi o garoto mais humilhado por uma garota e, conseqüentemente, pelos demais estudantes. Mas tudo mudou de um dia para o outro. Um milagre aconteceu naquela quinta-feira chuvosa. Era como se aquele imperceptível garoto tivesse gerado uma luz própria, como um raio, um brilho vindo da sua alma, chamando a atenção de todos. Admiração. Assédio. Orgulho em se tornar amigo do Ed. Da noite para o dia. Mas esse brilho vindo do Edmilson nada mais era do que um brinco que colocara na orelha esquerda no dia anterior, escondido dos seus pais que nada puderam fazer quando descobriram. Edinho virou um astro. O primeiro menino da escola a colocar um brinco. Os garotos o invejaram e as meninas adoraram, inclusive, a Marta, mas coitada, parecia que o brinco mudara até as atitudes de Ed, que esnobou a Albuquerque de maneira grosseira, mas excepcional para quem entendia o que se passava com o garoto.
O tempo passou.
Depois vieram a tatuagem, a moto, o trabalho, a esposa, o filho e a filha. Não me pergunte o que mais virá, Edinho sempre foi uma incógnita. Só posso dizer que eu juro que ele é incapaz de se lembrar disso tudo, assim como todos os outros alunos. O Ed! Quem diria?

A Nova Praça de Sempre!

Em frente à igreja matriz da cidade há uma praça central, antigo ponto de encontro das meninas que procuravam por um belo partido, desde que coligado com o do pai, e dos rapazes que buscavam, numa conversa ao pé do ouvido, novas inspirações para seus prazeres íntimos. Mas hoje tudo é diferente, a não ser pelos dois velhotes sentados no banco ao lado da fonte enferrujada.
- Lembra de como esse céu era mais azul?
- Culpa daquela maldita fábrica de cimento que chegou por aqui ainda no final dos anos 1960!
- Que, aliás, empregou você e sustentou sua família por mais de trinta anos!
- Maldita fábrica! Se não fosse por ela, talvez eu não tivesse casado e tido família para sustentar!
O tempo e o cimento trataram de acinzentar o céu daquela recém-emancipada cidade enquanto o povo se preocupou em colorir suas vidas com as novas tendências vindas de cidades capitais. Mas as mudanças de antigamente não eram tão bruscas e as pessoas conseguiam ingerir tais transformações sem serem atropeladas por um skate motorizado.
- Olha lá! Não é o seu netinho brincando de pega-pega com outro garotinho?
- Não! Aquele é um menino de rua que mora atrás da igreja! Todo dia ele me pede um cigarro!
- Eu não acredito! E você dá? Ele parece ter oito anos!
- Claro que não! Parei de fumar há quinze anos, quando o pó do cimento começou a fazer mal para os meus pulmões!
- Parece que ele roubou o cigarro do outro garoto!
- Maldita fábrica!
E assim aquela cidade cresce. Ainda é possível ouvir os pássaros cantarem, mas o cheiro do Rio Pitanguá, que atravessa a cidade, já não é o mesmo. Todos os dias, exatamente às dezessete horas, um odor nada refrescante paira no ar, é a fabrica de cimento despejando todo o seu resto de “material” sólido e líquido nas águas em que costumavam pescar.
- Peidou?
- Desculpa, peidei sim! Sabe como é! A idade vem e você não consegue segurar sequer a dentadura dentro da boca! Mas esse cheiro não é meu não, é do rio.
- Como é que pode? Eu mesmo já pesquei inúmeras tilápias por aquelas margens.
- Maldita fábrica!
Mas o que dizer das pessoas que agora freqüentavam e dividiam o mesmo espaço com os avôs inconformados? Traficantes, usuários de drogas, moradores de rua, pedintes, travecos, putas e velhos viciados em dama e cacheta disputavam um lugar ao céu acinzentado da praça central. Complicadíssimo, afinal, em cidade pequena quase todos se conhecem.
- Aí, vovô! Está na hora de se recolher! Está anoitecendo e esfriando, você pode pegar um resfriado!
- Mas que puta abusada! Como você a deixa falar assim com você?
- Tudo bem! Essa aí é filha da Creusa, a antiga faxineira da fábrica de cimento!
- E daí?
- E daí que o vovô aqui, na verdade, é pai da puta! Maldita fábrica!

Um dia de paz!

Um dia quero te mostrar que nada foi em vão,
Uma noite quero te provar e te pegar na mão,
Levar para ver o sol, invadir a escuridão
E abrir os olhos para poder pisar no chão.

Sinta o que a vida tem de melhor a oferecer,
Não se trave ou deixe que te atrasem,
O gostoso é como você se vê crescer,
Podendo brincar sem que te arrasem.

O medo fica para trás do que você traz,
Sua atitude muda e o mundo faz.
Respire, levante e se estique pra sorrir,
Esse é o jeito de se manter em pé e não cair.

Aproveite para correr e ver o espelho do mar
Refletir seu passado e passar,
Acorde e viva tudo aquilo que um dia sonhar
Para num breve futuro gozar.

Venha caminhar, se agarre em mim,
O caminho pode ser guiado por alguém,
Acontece que nunca chega ao fim,
Antes de você desencantar também.

Se esperar por muito tempo não peça, faça,
Se não sabe contar, se aborreça.
Mas tente não sentir dor
E leve amor para aonde for.

Marte é de morte!

O maior problema do mundo é a vida. Essa tal graça de Deus deixou a Terra sem graça. Olhe só Marte. Que espetáculo de planeta! E que brilho intenso! Uma verdadeira estrela bailando no céu! Muitas vezes, roubando a cena da lua. Mas aí eu até entendo, afinal, já houve vida nesse globo lunar, por poucos, mas memoráveis momentos – Um pequeno passo para o homem, um enorme passo para a humanidade! - Mas com Marte é diferente, por enquanto, nada comprova a existência de algum tipo de vida por lá, o que faz com que desejemos tanto pisar sobre o planeta vermelho e sermos os primeiros a habitarmos uma terra morta, mas divina. Olhe como é redonda! Aposto que é mais redonda do que o nosso planeta azul! Azul, que cor mais sem graça! Tudo bem, eu posso entender de novo, vermelho é a cor da moda. Mas que raios de vidas buscamos no universo? Quando na verdade, estamos atrás do novo mais velho que nós, já enterrado ou cremado.
Talvez estejamos à procura de um mundo contrário deste em que vivemos. Mais uma vez, entendo. Oh, mundinho chato este, mais cheio de vida! Credo! Eu também quero um lugar pra ser chamado de meu, onde não haja guerras e criancinhas miseráveis. Inclusive, esse deve ser o porquê uma viagem ao espaço custa tão caro, quem ganha menos de 80 salários mínimos não tem espaço para entrar. Mas se um dia chegarmos a Marte, acredito veemente que não seremos os primeiros. E aqueles robozinhos que a NASA manda para lá? Tenho a certeza de que uma comunidade robótica está sendo criada em Marte. A gente nunca escuta dizer o que acontece com eles depois das suas missões. Sem contar que aqueles andróides são mais inteligentes do que qualquer japonês dono de uma montadora de carros. E não venham me dizer que eles não têm vida. Muito do contrário, a vida que eles levam é melhor do que a qualquer um de nós, pelo menos até serem enviados para o espaço. São tratados como aquela galinha que precisa ser bem alimentada para depois alimentar bem.
Voltando a morte, digo, a Marte, tem um problema com séria gravidade: a falta dela. Mas, então, qual é a graça de se viver num lugar como esse? Tudo bem, eu serei repetitivo, mas entendo. Olha que bacana, posso voar! Que delícia flutuar! Estou me sentindo tão leve, nem parece que peso 130 quilos! Quanta bobagem, isso deve ser um pé no saco depois de 30 minutos, imagine 12 horas por dia. Eu digo 12 porque nas outras 12 horas você não teria nada com que se preocupar e, quem sabe poderia descansar ou cochilar ou ainda assistir os vídeos mais engraçados do YouTube feitos aqui na Terra pelo seu iSpacial (é assim que o iPhone deverá se chamar futuramente).
O que me preocupa de verdade é sobre o que acontecerá quando dividirmos o solo vermelho com os robôs e entramos em guerra com os coreanos do hemisfério sul que chegaram três meses depois dos americanos e insistem em detonar uma bomba atômica sobre os países de terceiro mundo que ficaram naquela área inabitável e escura, onde o sol nunca bate. O que faremos e pra onde iremos? Plutão está fora do sistema solar e do nosso alcance. Sendo assim, nos vemos em Vênus.

Já vi.

Já te vi chorar de alegria.
E há pouco tempo, te vi chorar de tristeza.
Já vi tantas coisas em você e com você.
Já vi paixão, amor, desejo.
Já vi o futuro com você.
Já vi a paz e a alegria.
Já vi e revi.
Já vi o sol, o mar, a lua e estrelas com você.
Já vi até hipopótamos com você.
Já vi teus segredos.
Já vi saudades.
Já vi o seu cheiro.
Já me vi em seu olhar.
Já te vi em meus sonhos.
Já vi em fotos.
Já vi no escuro.
Já vi com o toque.
Já vi em déjà vu.
Já vi e vivi.
Já te vi ir e vir.
Já vi.

Tensão Pré-Divórcio.

- Por que você não me disse?
- E desde quando eu preciso lhe dizer que fui à feira comprar meia dúzia de batatas?
- Desde quando aceitou aquela baboseira toda que o padre disse, na saúde e na riqueza...
- Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, Luiz! E se tudo aquilo foi uma baboseira como você diz, por que lhe devo explicações?
- Não complica, Rosi! Você é minha mulher! Eu só quero saber por onde anda!
- Tudo bem! Para o seu conhecimento, eu fui à feira fazer a compra da semana! Depois de passar na casa da minha mãe e antes de ir fazer a unha!
- Eu sabia!
- Do que, Luiz?
- De você! Saiba que você, Rosi, está dando motivos para os vizinhos me acharem o maior corno do prédio! Oi, onde você mora? Ali, no bloco C! Ah, no C de corno!
- Pára com isso, Luiz! Eu sou a mulher mais fiel desse mundo e sempre te respeitei! Essa sua desconfiança e insegurança, sim, é baboseira! Eu te amo, meu bem!
- E essas unhas? Para que? Se a gente não tem festa de aniversário ou, sequer, festa de casamento para ir!
- O que deu em você, hein? Eu sou mulher e a vida toda eu fiz as unhas, inclusive, depois de nos casarmos!
Silêncio.
- Desculpa, Rosi! Desculpa, eu não queria...
- Tudo bem, meu amor! Eu entendo! Você deve estar carente! Venha aqui me dar um abraço!
Um longo abraço de três segundos!
- O que é isso, Luiz?
- Isso o que, querida?
- Esse cheiro! É do seu perfume novo, e que eu te dei no Dia dos Namorados!
- É mesmo! Gostou?
- Não! Mas aquelas vagabundas do escritório devem ter adorado!
- Se não gostou, por que me deu?
- Não se faça de cínico! Que história é essa de ir trabalhar com o perfume novo que eu te dei?
- Mas esse é o único que eu tenho!
- Não me interessa! A propósito, depois de fazer as unhas, eu fui à farmácia, depois à padaria e depois ao shopping olhar as vitrines por mais de duas horas!

A mania de ser Jorge.

Jorge é um cara despojado. Jorge é um cara que entende de futebol e mulher. Jorge é um cara que entra numa roda de samba, canta e samba. Jorge é um cara cool. Jorge é o cara. Todos os caras sabem, mas caras machos não dizem isso, apenas: Jorge é gente fina.
Jorge é galã. Jorge é assunto na roda feminina. Elogiado pelas pretendentes. Massacrado pelas n moças inocentes que caíram naquela lábia formada em botequins. Com Jorge não há meio termo. Ou vai ou racha. E geralmente, racha.
Jorge brigaria pela vaga de síndico de seu prédio ou pela presidência do clube dos amigos do bairro. Jorge seria um forte candidato, se não fossem suas manias. Jorge é cheio de manias. Eu costumo dizer que sua pior mania é gostar de ter manias. Jorge acumula e faz questão de inovar.
Jorge tem mania de torcer pelo Corinthians. Até aí, tudo bem, torcedor do timão é igual à esquina, todo canto tem. Mas Jorge é do tipo C, de Corintiano Chato pra Caralho. Daqueles que leva desaforo para casa só para pensar numa resposta à altura. Daqueles que acredita que Sócrates era melhor que o Rei ou o Mané, ou os dois juntos. Jorge tem mania de vestir a velha camisa desbotada dos tempos de Neto e Tupãzinho, com a marca Kalunga estampada. A cada gol, um berro:
- Chupa, Rogério Ceni!
Mesmo o gol sendo contra o América de Natal. Vai até a janela e solta uma dúzia de rojões. Os vizinhos conhecem e temem as manias de Jorge, dizem que o morador do quinto andar, palmeirense, também grita pelo timão. E a cada gol sofrido, outro berro:
- Vai tomar no cu, Curintia!
Jorge, então, desliga a TV e parte rumo ao boteco de esquina. Jorge tem mania de cachaça desde os dezoito anos. É a mania que ele tem de esquecer os resultados dos jogos. Ao entardecer, quando está prestes a voltar para casa, com a mania de azia que a pinga lhe dá, ele pergunta aos companheiros desiludidos:
- Quanto será que foi o jogo do Brasil?
Já em casa, Jorge tem a mania de chegar, ouvir um disco do Noel Rosa na velha vitrola e dançar pelado pela casa. Essa mania de chocar a vizinha crente do prédio em frente ainda vai lhe render problemas. Não dura muito. Em alguns minutos, Jorge está dormindo nu sobre o tapete da sala.
Mas Jorge tem a irritante mania de não perder a roda de samba de sábado a noite do bar do Gilmar. Jorge é experiente e aprendeu a lidar com a bebida, minutos após o cochilo, está em pé escolhendo o figurino e esperando a ducha esquentar. Cuidadosamente, separa a camisa de linho e sapato de couro, típicos dos sábados de Jorge. Depois vai até o banheiro, fecha a janela e a porta para que o vapor do chuveiro se concentre. Volta para a sala, abre o caderninho de telefones e dispara a ligar para suas rainhas de bateria. Dezessete minutos mais tarde, Jorge se enxágua na sauna de sua suíte.
Ao chegar no samba, Jorge desanda. Mania de cantar mulher casada. Mania de dançar com a noiva do Gilmar. Mania de beber na conta do seu Zé. Mania de sambar até a sola gastar. Mania de subir no palco e pegar o pandeiro para tocar. Mania de insistir que a namorada do Rui é namorada dele. Mania de cantar de galo. Mania de apanhar do segurança. Mania de correr para o banheiro vomitar. Mania de pedir a saideira. Mania de pedir a da casa. Mania de arrastar a Sandrinha para fora do bar. Mania de encostar a Carlinha no canto. Mania de levar tapa na cara da Roberta. Mania de convidar a Simone para dormir no seu apartamento. Mania de acordar e dar bom dia para a Sandrinha. Mania de apanhar da Simone. Mania de ressaca no domingo. Mania de esquecer os fatos da noite anterior. Mania de se desculpar com todos.
Jorge é assim mesmo, cheio de manias. Mas todo mundo gosta. Jorge tem a mania de pescar no Pantanal, chega a ficar um mês no Mato Grosso. E quando isso acontece, os amigos sentem falta das suas loucuras. Afinal, Jorge é um cara despojado. Jorge é um cara que entende de futebol e mulher. Jorge é um cara que entra numa roda de samba, canta e samba. Jorge é um cara cool. Jorge é o cara. Todos os caras sabem, mas caras machos não dizem isso, apenas: Jorge é gente fina.
Jorge é galã. Jorge é assunto na roda feminina. Elogiado pelas pretendentes. Massacrado pelas n moças inocentes que caíram naquela lábia formada em botequins. Com Jorge não há meio termo. Ou vai ou racha. E geralmente, racha.
Jorge é a mania da vizinhança.

Ser legal é ser chato.

Com certeza você conhece um chato, se não, é provável que você seja o tal. Mas é possível encontrar um chato em qualquer canto desse planeta. É mais fácil do que encontrar aquela tesoura quando menos se espera (como dois dias depois que você revirou a sua casa para achá-la). É como se esses amoladores andassem pela empresa com o crachá pendurado no pescoço e escrito: Chato - Almoxarifado. Esses seres irritantes nos incomodam tanto que, em alguns casos, um simples “por favor” pode nos levar a loucura.
- Pô, que cara chato! Não precisa me pedir “por favor” toda hora!
Mas caso contrário:
- Pô, que cara chato! Pensa que eu sou empregado dele, nem um “por favor”!
E, muitas vezes, é. Chefe deve ser considerado a pessoa mais aporrinhadora, azucrinante e importuna que existe, claro, com suas raras exceções.
- Filho da puta! Vai ver quando eu trabalhar pra concorrência, aí vai reconhecer meu trabalho! Vai tomar no cu, veado!
- Disse alguma coisa?
- Viável! Digo... tomar suco... é viável! Eu estava explicando para o Edu sobre uma dieta e...
Mas com chefe não se discute, se obedece. Já com outros, não tem como. Em algum momento, você perde a cabeça e descarrega toda a fúria que guardava desde o primeiro dia em que viu aquele impertinente fofocando com a secretária mais gostosa e ambos olhando para a sua cara e rindo. Óbvio que pinta algo mais do que uma invejinha. E a partir daí:
- Bom dia!
- Boa tarde!
A partir daí, você começa a pegar no pé do chato e qualquer motivo, como o atraso de cinco minutos, é motivo para querer irritá-lo também. É quando o perigo de você se tornar o rabugento se aproxima, cuidado. O bom mesmo é mantê-lo no posto, e o segredo é fazer com que os outros saibam:
- Lá vem o Vítor! Esse cara é engraçado!
- Engraçado foi a imitação que ele fez de você trabalhando!
- O que?
Confesso que esse é um plano maligno, mas infalível. O problema mesmo é quando todos descobrirem a mala que costumava trabalhar com eles e a bagagem sem alça for demitida, porque até o chefe pegou implicância daquele “bom dia com alegria” todo sorridente e disposto. E a falta que um sujeito desses faz em qualquer recinto pode ser sentida a mais de trinta andares.
Um vazio.
Um silêncio.
Uma melancolia.
- Bom dia!
- Bem e você?
Mas nada se compara com a tristeza do elevador calado. Alguns dias, até dá pra ouvir o pensamento de alguns: ah, o chato não era tão chato assim! Ou: é, o chato até que era legalzinho! E não é que era mesmo. Aquele insuportável era o suporte da felicidade no ambiente. Com ele, a alegria era diária, se não pra uns, era pra outros, e quando não pra outros, era pra uns.

E vice-versa.

- Frango!
- Passarinho!
- Ave!
- Maria!
- Lenda!
- História!
- Quadrinhos!
- Mangá!
- Manga!
- Rosa!
- Branca!
- Couve!
- Flor!
- Fruta!
- Banana!
- Maçã!
- Verde!
- Azulado!
- Tricolor!
- Verdão!
- Alvinegro!
- Timão!
- Botafogo!
- XV de Jaú!
- Quinze?
- Um!
- Zero!
- 10!
- Ronaldo!
- Gaúcho!
- Brasil!
- Guiné!
- Equatorial!
- Passagem!
- Passaporte!
- Classe econômica!
- Primeira classe!
- Classe “A”!
- Letra “E”!
- “C”!
- “D”!
- Samba!
- Rock!
- Agressivo!
- Antipático!
- Sim...
- Pático!
- Não!
- Não?
- Sim... patia!

Papai Noel que estás no céu!

O Natal é tão antigo quanto Jesus. Uma data que já foi celebrada milhares de vezes e continua sendo comemorada pela maioria dos seres humanos do planeta Terra. Mas o que será que Deus acha disso? Oras, deve estar orgulhoso de seus filhos se reunirem e brindarem o amor, a paz e toda aquela fartura de comida. Mas se você parar para pensar nas famílias pobres e desabrigadas que “festejam” este dia com a mesma fome que passaram no Corpus Christi ou na Páscoa, vai desconfiar que Ele deva estar puto com tudo isso. E o que será que Jesus está pensando? Uns com tanto e outros com nada. E aquela lição que ele nos ensinou quando dividiu seu pão? Talvez nem mesmo o aniversariante tenha as respostas. Eu consigo imaginar o papo que Pai e filho devem estar tendo agora no céu:

- Oh, Pai! É Natal! Olhe para eles! O que foi que eu fiz de errado?
- Nada meu filho! A culpa não é sua!
- Mas Pai, você me enviou com uma missão e após muitos anos, posso ver que falhei!
- Foi o homem quem falhou, meu filho!
- Pai, deixe-me descer novamente para consertar esta história?
- Não posso, meu filho! E lhe dou uma bela razão: aquele lugar não é para você!

Após milhares de anos, e mais um Natal, Deus acertou novamente. Já imaginou como Jesus seria tratado por aqui? Sofreria a mesma repressão com os atuais anticristos. Antes mesmo de dividir seu pão, alguém o tomaria e sairia correndo. E se oferecesse a outra face, seria bem provável que levasse um tiro. Pelo amor de Deus. Acredito mesmo que seja pelo Seu amor que não envie outro salvador. Só paro para pensar o quanto seria boa a sua vinda se tivéssemos outro dia para comemorar o Natal. Menos em fevereiro, porque o carnaval por aqui também é sagrado.
Eu acredito em Deus, assim como acredito no Papai Noel, mas principalmente nesta época me questiono se Ele pode salvar a vida de todos. Poderíamos deixá-lo em paz por um tempo e começarmos a rezar para o Bom Velhinho. Excelente idéia. Noel fica muito ocupado durante o dia 25, mas e quanto aos outros dias do ano? Ele poderia tirar alguns dias a menos de férias e espalhar mais presentes, trazendo justiça, dignidade e respeito em seu saco, afinal, no dia de Natal a gente até tolera alguns fatos, mas, nos outros, ninguém mais tem saco para agüentar. Neste Natal vou pedir ao Papai Noel para ser o nosso próximo salvador. Quem sabe assim, aquele espírito natalino ressuscite.

Joana dos Prazeres.

- Prazer, Joana Gomes, 27, digo, 32, casada! Ou melhor, solteira! Quero dizer, amante! Desisto, não sei!

Joana, na verdade era casada, e muito bem casada. Seu marido, Jorge Peixoto, era conhecido de todos. Político reeleito com mais de 85% dos votos. E se pensa que era mais um dos engravatados de Brasília, se engana. Jorge era Humilde, Honesto e Homem. Adorado por todos, inclusive pela mulher. Que também adorava Rinaldo, padeiro da esquina de sua casa.

Eu não a culpo, acho até que fez muito bem feito. Nada contra o seu prefeito. Mas Joana era infeliz ao lado do governante, sentia-se sozinha durante o dia, à tarde e a morte de um parente. As tarefas na câmara e as longas viagens abalaram os ânimos da Primeira-dama. Que resolveu buscar colo, logo ali ao lado. Mas por incrível que pareça, foi paixão à primeira vista. Joana se derreteu com os olhos verdes de Rinaldo. E Rinaldo, claro, se instigou pelas curvas, coxas torneadas e par de peitos da loira, de um metro e oitenta e tantos.

- Prazer, Joana!

Com o passar do dia, Joana cortou a dieta e começou, de hora em hora, saborear aquelas porcarias deliciosas do balcão da panificadora. Acabou que começou um lindo e trágico caso de paixão. Dias e mais dias, olhares e mais olhares, carícias e mais carícias. Rinaldo já abria a porta da geladeira sem pedir permissão. A sorte dos dois era que a vizinhança adorava tanto o Excelentíssimo corno, que acabaram adorando a sem vergonha, nada contra, eu já disse, mas era como ela seria chamada caso soubessem. E nem se importavam quando o jovem demorava 5 minutos para entregar o leite àquela gata faminta.

Esta é uma história trágica, não pelo que o político fez com o pobre rapaz, até porque, ele nunca soube. É trágica pelo fato de que as promessas de paixão eterna de Joana, logo se derreteram e escoaram pelo ralo do banheiro, local predileto da Excelentíssima dama de segunda, nada contra, mas sempre tem um gozador. E neste caso, não era a mulher, ela não gozava mais do carinho e atenção de Rinaldão.

Torna-se mais triste, saber que mantém os dois romances em alta, sem negar fogo a qualquer um dos dois. Mas voltou a ser infeliz. Sentia-se amada, mas não amava. E mais uma vez, acertou. Partiu em busca de colo, novamente. Calmamente, não era de escolher, esperava acontecer o tal encanto. Apesar de adorar os lindos olhos azuis do Carlos, açougueiro da rua de baixo. Isso me faz lembrar o dia em que a encontrei comprando meio quilo de fígado:

- Obrigada, Carlão!

- Foi um prazer, minha Primeira-dama!

Pensando bem, talvez Rinaldo não fosse o primeiro da Primeira.

Todo dia é dia!

Em janeiro fui ver o mar,
Aproveitei para nadar,
Tomar sol e gargalhar,
Todo dia é dia de comemorar.

Em fevereiro me fantasiei,
Pulei, dancei e desfilei,
Mais um carnaval eu adorei,
Todo dia é dia de rei.

Março já chegou,
E meu amor já embarcou,
Mas o mundo não acabou,
Todo dia é dia de dar show.

Em abril nada é em vão,
Conto as horas que se passarão,
Com os bons momentos no coração,
Todo dia é dia de uma nova paixão.

Em maio as folhas ainda vão cair,
Enquanto espero a mamãe vir,
A alegria vou dividir,
Todo dia é dia de sorrir.

Junho é o mês do namorado,
Com um beijo apaixonado
Viver um sonho encantado,
Todo dia é dia de ser amado.

Em julho quero descansar,
Neste frio me agasalhar,
Perder a preguiça e trabalhar,
Todo dia é dia de batalhar.

Agosto é mês do paizão,
Quero lhe dar um presentão
Que todos lembrarão,
Todo dia é dia de gratidão.

Em setembro aconteceu a independência,
Aprendi na escola, e na ciência,
A velocidade da freqüência,
Todo dia é dia de eficiência.

Em outubro tem o dia da criança,
Que brinca e nunca se cansa,
Quando dorme, amansa,
Todo dia é dia de esperança.

Em novembro é primavera,
Quero me divertir com a galera,
Em breve uma nova era,
Todo dia é dia de cuidar da atmosfera.

Dezembro, verão e muita cor,
Natal com a família e muito sabor,
Posso sentir todo esse calor,
Todo dia é dia de amor.

Cacá pra nós!

Carlos Alberto é um homem desprezível, nojento, escrotal. Esses são apenas alguns dos adjetivos mais comentados entre as pobres moçoilas que o rapaz fez questão de se aproveitar e espalhar pela cidade. Ele costumava contar os casos e os detalhes mais íntimos de cada garota. A Luíza não depila as virilhas. A Cláudia tem um tremendo chulé, a gente só transava de tênis. Era incrível como Cacá, apelido carinhoso que fazia questão de ser chamado pelas meninas, conseguia ser tão cafajeste. Suas histórias divertiam os colegas de bar ao mesmo tempo em que os assustavam, pois, apesar de muitos duvidarem, eles se recusavam a provar para saber se tudo aquilo era verdade ou não. Isso fez até com que a fama de galã do Marcinho repercutisse pelo bairro. Ele recusou de todas as maneiras o convite da Cacau para desfilar com ela pelo Grêmio no carnaval, e olha que a garota era um espetáculo de mulher, mas os tais boatos do Carlos diziam que ela tinha frieiras e o ouvido cheio de ceras. O que explicava como ela conseguia dançar tanto tempo ao lado da bateria e não explicava o samba nos pés. Até que um dia, as mulheres todas traídas, da pior maneira que uma mulher poderia ser traída, se reuniram para bolar um plano contra o Cacá, digo, Carlos Alberto. Com o apoio maciço dos rapazes que já estavam cansados de escutar aquelas histórias brocháveis. Combinaram de espalhar que uma nova e linda garota havia se mudado para a casa ao lado do Romulão e que estava louca para conhecer os tais segredos de Cacá. Alberto que não é bobo e nem nada, logo, tratou de convencer a coitadinha a conhecer o cenário de seus contos eróticos, o seu próprio apê. O que aquele miserável não sabia, era o fato de que aquela indefesa rapariga na verdade era o Romulão, e antes que vocês se preocupem com a imagem do Mulão, é bom saber que tratava de uma bicha assumida, desinibida e com tudo em riba. E isso fez com que Cacá levasse um troco inesquecível. Virou chacota da cidade toda, pois a notícia se espalhou com mais rapidez do que de costume. Mas, não é que o Carlos Alberto deu um jeito de sair por cima dessa história toda. Ele convenceu os seus arqui-amigos de que Romulão era inigualável na cama, e que nenhuma garota, sequer, chegava aos seus pés. E claro que, nenhuma donzela gostou dessa versão mentirosa, afinal, a concorrência acabara de aumentar.

Papo-cabeça!

- Olá, o que faz por aqui? – Veio buscar o cinzeiro que esqueceu?
- Oi! Eu estava passando por perto e resolvi fazer uma visita! – Na verdade pensei que iria encontrá-la com aquela camisola sexy!
- Entre! O que veio fazer por essas bandas? – Suma! Não tem nada que você possa fazer aqui!
- Acontece que eu estava programando um jantar em casa e combinei de preparar aquele yakissoba que costumava lhe dar água na boca só de pensar, lembra? – Agora vai lá, veste a camisola que eu comprei no sexshop e te dei de aniversário!
- Claro que lembro! Realmente, era uma delícia! – Era nojento! Culpa daquele shoyo barato que você dizia ser o ingrediente secreto!
- Pois, então! Sabe aquele shoyo que eu usava? Será que você não tem algum por aqui? Porque o dono do mercado disse que não vendem mais! E você sabe muito bem que aquele shoyo era meu ingrediente secreto, não sabe? – Falando em secreto, que calcinha você deve estar usando hoje, hein? Aquela rosa escrita “reciclável”?
- Sei sim! Mas eles não fabricam aquele shoyo desde dois mil e quatro! – Toma, seu safado! Agora quero ver você preparar a jantinha para aquela baranga!
- Que pena! – Você tá malhando? Tá bem gostosa!
- Pois é! – Quem é a baranga?
- Mas tudo bem! Vou ter que achar outro shoyo caro daquele! – Como é? Não vai dizer que ainda me ama?
- Filho da puta! – Filho da puta!
- O que você disse? – Ela me chamou de filho da puta?
- Nada não! Desculpa, estou um pouco distraída! Sabe como é, né? Namorar sempre me deixou com a cabeça nas nuvens! – Engole essa, seu cretino!
- Não me diga que está namorando novamente? – Que porra é essa de namorado?
- Estou sim! Você tem que conhecê-lo! Ele é maravilhoso! – Lá lá lá!
- Eu adoraria! - Conhecer o caralho!
- Ele é meigo, simpático, doce! – Isso também quer dizer diferente de você!
- Parabéns, Dani! Você merece alguém que te ame e retribua todo o seu carinho! – Piranha! Deve estar usando as calcinhas e camisolas que te eu dei, né?
- Obrigada, Edu! Você é um amor! – E um canalha, um desprezível e um infeliz!
- Bom, acho que nessa! – Já vi que não vai rolar um sexo animal como antigamente!
- Certo! E venha me visitar mais vezes! – E nunca mais apareça por aqui!
- Então, tá! Tchau! – Mas nem uma pegadinha?
- Tchau! Vamos combinar de nos reunir com os respectivos para jantar aquele saboroso yakissoba qualquer dia! – Para eu rir da sua cara em público!
Porta se fecha.
- Ainda te amo!
- Te amo ainda!

Ah, se meu criado-mudo falasse!

Meu criado-mudo é tão pequeno que mal cabe minha coleção de fotografias de familiares, amigos e antigas namoradas, pois tenho o costume (ou preguiça) de mantê-las fora do álbum, talvez para espalhá-las sobre a cama quando sinto saudades.
Meu criado-mudo também é tão discreto que mal o enxergo nas madrugadas em que me levanto às pressas para atender o interfone, na esperança de ser uma das antigas namoradas, e bato com o dedão direito do pé na mesma quina de sempre daquele móvel de madeira, que a dor diz ter sido feito de ferro. Não sei por que ainda insisto em me levantar, geralmente é engano, gente procurando o apartamento de número 210, e não 201. Então, sou obrigado a passar o restante das horas de insônia discutindo com meu criado-mudo, insistindo que a culpa por tropeçar todas as noites seja dele. Isso me ajuda a esquecer das fotografias.
Quando o dia está quase clareando e começo a pegar no sono novamente, escuto uma voz suave, lenta e macia, como se uma das ex-namoradas estivesse saindo daquele caixote para sussurrar no meu ouvido. Mas o que ouço, ou pelo menos o que finjo escutar, é:
- De novo, burro!
De novo, não. Mais uma noite em claro, só e ouvindo meu criado-mudo debochar de mim. Antes de me levantar, ainda perco alguns minutos me convencendo de ter sonhado tudo aquilo, porque se meu criado-mudo realmente falasse, minhas lembranças já estariam espalhadas pela rua, após arremessá-lo do segundo andar.