Ah, se meu criado-mudo falasse!

Meu criado-mudo é tão pequeno que mal cabe minha coleção de fotografias de familiares, amigos e antigas namoradas, pois tenho o costume (ou preguiça) de mantê-las fora do álbum, talvez para espalhá-las sobre a cama quando sinto saudades.
Meu criado-mudo também é tão discreto que mal o enxergo nas madrugadas em que me levanto às pressas para atender o interfone, na esperança de ser uma das antigas namoradas, e bato com o dedão direito do pé na mesma quina de sempre daquele móvel de madeira, que a dor diz ter sido feito de ferro. Não sei por que ainda insisto em me levantar, geralmente é engano, gente procurando o apartamento de número 210, e não 201. Então, sou obrigado a passar o restante das horas de insônia discutindo com meu criado-mudo, insistindo que a culpa por tropeçar todas as noites seja dele. Isso me ajuda a esquecer das fotografias.
Quando o dia está quase clareando e começo a pegar no sono novamente, escuto uma voz suave, lenta e macia, como se uma das ex-namoradas estivesse saindo daquele caixote para sussurrar no meu ouvido. Mas o que ouço, ou pelo menos o que finjo escutar, é:
- De novo, burro!
De novo, não. Mais uma noite em claro, só e ouvindo meu criado-mudo debochar de mim. Antes de me levantar, ainda perco alguns minutos me convencendo de ter sonhado tudo aquilo, porque se meu criado-mudo realmente falasse, minhas lembranças já estariam espalhadas pela rua, após arremessá-lo do segundo andar.

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