A Nova Praça de Sempre!

Em frente à igreja matriz da cidade há uma praça central, antigo ponto de encontro das meninas que procuravam por um belo partido, desde que coligado com o do pai, e dos rapazes que buscavam, numa conversa ao pé do ouvido, novas inspirações para seus prazeres íntimos. Mas hoje tudo é diferente, a não ser pelos dois velhotes sentados no banco ao lado da fonte enferrujada.
- Lembra de como esse céu era mais azul?
- Culpa daquela maldita fábrica de cimento que chegou por aqui ainda no final dos anos 1960!
- Que, aliás, empregou você e sustentou sua família por mais de trinta anos!
- Maldita fábrica! Se não fosse por ela, talvez eu não tivesse casado e tido família para sustentar!
O tempo e o cimento trataram de acinzentar o céu daquela recém-emancipada cidade enquanto o povo se preocupou em colorir suas vidas com as novas tendências vindas de cidades capitais. Mas as mudanças de antigamente não eram tão bruscas e as pessoas conseguiam ingerir tais transformações sem serem atropeladas por um skate motorizado.
- Olha lá! Não é o seu netinho brincando de pega-pega com outro garotinho?
- Não! Aquele é um menino de rua que mora atrás da igreja! Todo dia ele me pede um cigarro!
- Eu não acredito! E você dá? Ele parece ter oito anos!
- Claro que não! Parei de fumar há quinze anos, quando o pó do cimento começou a fazer mal para os meus pulmões!
- Parece que ele roubou o cigarro do outro garoto!
- Maldita fábrica!
E assim aquela cidade cresce. Ainda é possível ouvir os pássaros cantarem, mas o cheiro do Rio Pitanguá, que atravessa a cidade, já não é o mesmo. Todos os dias, exatamente às dezessete horas, um odor nada refrescante paira no ar, é a fabrica de cimento despejando todo o seu resto de “material” sólido e líquido nas águas em que costumavam pescar.
- Peidou?
- Desculpa, peidei sim! Sabe como é! A idade vem e você não consegue segurar sequer a dentadura dentro da boca! Mas esse cheiro não é meu não, é do rio.
- Como é que pode? Eu mesmo já pesquei inúmeras tilápias por aquelas margens.
- Maldita fábrica!
Mas o que dizer das pessoas que agora freqüentavam e dividiam o mesmo espaço com os avôs inconformados? Traficantes, usuários de drogas, moradores de rua, pedintes, travecos, putas e velhos viciados em dama e cacheta disputavam um lugar ao céu acinzentado da praça central. Complicadíssimo, afinal, em cidade pequena quase todos se conhecem.
- Aí, vovô! Está na hora de se recolher! Está anoitecendo e esfriando, você pode pegar um resfriado!
- Mas que puta abusada! Como você a deixa falar assim com você?
- Tudo bem! Essa aí é filha da Creusa, a antiga faxineira da fábrica de cimento!
- E daí?
- E daí que o vovô aqui, na verdade, é pai da puta! Maldita fábrica!

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