A mania de ser Jorge.

Jorge é um cara despojado. Jorge é um cara que entende de futebol e mulher. Jorge é um cara que entra numa roda de samba, canta e samba. Jorge é um cara cool. Jorge é o cara. Todos os caras sabem, mas caras machos não dizem isso, apenas: Jorge é gente fina.
Jorge é galã. Jorge é assunto na roda feminina. Elogiado pelas pretendentes. Massacrado pelas n moças inocentes que caíram naquela lábia formada em botequins. Com Jorge não há meio termo. Ou vai ou racha. E geralmente, racha.
Jorge brigaria pela vaga de síndico de seu prédio ou pela presidência do clube dos amigos do bairro. Jorge seria um forte candidato, se não fossem suas manias. Jorge é cheio de manias. Eu costumo dizer que sua pior mania é gostar de ter manias. Jorge acumula e faz questão de inovar.
Jorge tem mania de torcer pelo Corinthians. Até aí, tudo bem, torcedor do timão é igual à esquina, todo canto tem. Mas Jorge é do tipo C, de Corintiano Chato pra Caralho. Daqueles que leva desaforo para casa só para pensar numa resposta à altura. Daqueles que acredita que Sócrates era melhor que o Rei ou o Mané, ou os dois juntos. Jorge tem mania de vestir a velha camisa desbotada dos tempos de Neto e Tupãzinho, com a marca Kalunga estampada. A cada gol, um berro:
- Chupa, Rogério Ceni!
Mesmo o gol sendo contra o América de Natal. Vai até a janela e solta uma dúzia de rojões. Os vizinhos conhecem e temem as manias de Jorge, dizem que o morador do quinto andar, palmeirense, também grita pelo timão. E a cada gol sofrido, outro berro:
- Vai tomar no cu, Curintia!
Jorge, então, desliga a TV e parte rumo ao boteco de esquina. Jorge tem mania de cachaça desde os dezoito anos. É a mania que ele tem de esquecer os resultados dos jogos. Ao entardecer, quando está prestes a voltar para casa, com a mania de azia que a pinga lhe dá, ele pergunta aos companheiros desiludidos:
- Quanto será que foi o jogo do Brasil?
Já em casa, Jorge tem a mania de chegar, ouvir um disco do Noel Rosa na velha vitrola e dançar pelado pela casa. Essa mania de chocar a vizinha crente do prédio em frente ainda vai lhe render problemas. Não dura muito. Em alguns minutos, Jorge está dormindo nu sobre o tapete da sala.
Mas Jorge tem a irritante mania de não perder a roda de samba de sábado a noite do bar do Gilmar. Jorge é experiente e aprendeu a lidar com a bebida, minutos após o cochilo, está em pé escolhendo o figurino e esperando a ducha esquentar. Cuidadosamente, separa a camisa de linho e sapato de couro, típicos dos sábados de Jorge. Depois vai até o banheiro, fecha a janela e a porta para que o vapor do chuveiro se concentre. Volta para a sala, abre o caderninho de telefones e dispara a ligar para suas rainhas de bateria. Dezessete minutos mais tarde, Jorge se enxágua na sauna de sua suíte.
Ao chegar no samba, Jorge desanda. Mania de cantar mulher casada. Mania de dançar com a noiva do Gilmar. Mania de beber na conta do seu Zé. Mania de sambar até a sola gastar. Mania de subir no palco e pegar o pandeiro para tocar. Mania de insistir que a namorada do Rui é namorada dele. Mania de cantar de galo. Mania de apanhar do segurança. Mania de correr para o banheiro vomitar. Mania de pedir a saideira. Mania de pedir a da casa. Mania de arrastar a Sandrinha para fora do bar. Mania de encostar a Carlinha no canto. Mania de levar tapa na cara da Roberta. Mania de convidar a Simone para dormir no seu apartamento. Mania de acordar e dar bom dia para a Sandrinha. Mania de apanhar da Simone. Mania de ressaca no domingo. Mania de esquecer os fatos da noite anterior. Mania de se desculpar com todos.
Jorge é assim mesmo, cheio de manias. Mas todo mundo gosta. Jorge tem a mania de pescar no Pantanal, chega a ficar um mês no Mato Grosso. E quando isso acontece, os amigos sentem falta das suas loucuras. Afinal, Jorge é um cara despojado. Jorge é um cara que entende de futebol e mulher. Jorge é um cara que entra numa roda de samba, canta e samba. Jorge é um cara cool. Jorge é o cara. Todos os caras sabem, mas caras machos não dizem isso, apenas: Jorge é gente fina.
Jorge é galã. Jorge é assunto na roda feminina. Elogiado pelas pretendentes. Massacrado pelas n moças inocentes que caíram naquela lábia formada em botequins. Com Jorge não há meio termo. Ou vai ou racha. E geralmente, racha.
Jorge é a mania da vizinhança.

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