Edmilson é um homem bem-sucedido, técnico em informática, trabalha mais de oito horas por dia, pai de um moleque levado de seis anos de idade e uma adorável mocinha de apenas três e casado com uma mulher linda e simpática. O Ed! Quem diria? Eu jurava que ele seria incapaz de namorar alguém, jurava que seria incapaz de completar a maioridade. Eu estudei com o Ed no colégio. Um sujeito simples, meio abobado, mas feio por inteiro. Um garoto quieto, mas impaciente. Todas as piadinhas mais sacanas que rolavam na sala de aula durante a matéria da Luciana, professora de português, vinham das suas idéias e eram expostas pelas bocas dos meninos mais extrovertidos.
- Fessora, a senhora conhece a Paula do quarto ano?
- Paula... Paula... Qual é o sobrenome?
- Dentro, Paula Dentro!
- Vou checar na minha lista de chamadas mais tarde!
A sacanagem era antiga, mas a turma toda ria sem parar a cada vez que um aluno qualquer soltava a piada vinda do Edmilson. Dava pra sentir um pouquinho de inveja nos seus olhos, afinal, as meninas adoravam os meninos mais falantes, e ele, sempre calado, pensava: um dia saberão que sou eu o cabeça da turma e implorarão minhas atenções. Mas que nada, sempre que tentava soltar uma palavra em público era possível ouvir a profunda respiração das crianças mais ranhentas. Ed não se dava bem com os colegas dessa forma, mas sempre andava acompanhado e nunca foi solitário. Até o dia em que se apaixonou pela Marta, aluna do terceiro ano. Calou-se ainda mais e suas piadas começaram a ficar românticas e a perder a graça.
- Fessora, você tá parecendo uma rosa desabrochando!
- Obrigada, Daniel!
- O que? O que eu disse pra ela, Edinho?
Então, os meninos, furiosos por se sentirem tolos ao dizer aquelas bobagens, ignoraram o Edinho por um longo período. Tanto fazia. Ele estava perdidamente gamado pelos cabelos loiros e nariz arrebitado da Marta de Albuquerque Queiroz, era assim como ela gostava de ser chamada. Vinha de uma família tradicional e sentia-se importante entre os alunos da escola. Coitado do Edmilson. Durante alguns semestres e provas que aborreciam seus pais, foi o garoto mais humilhado por uma garota e, conseqüentemente, pelos demais estudantes. Mas tudo mudou de um dia para o outro. Um milagre aconteceu naquela quinta-feira chuvosa. Era como se aquele imperceptível garoto tivesse gerado uma luz própria, como um raio, um brilho vindo da sua alma, chamando a atenção de todos. Admiração. Assédio. Orgulho em se tornar amigo do Ed. Da noite para o dia. Mas esse brilho vindo do Edmilson nada mais era do que um brinco que colocara na orelha esquerda no dia anterior, escondido dos seus pais que nada puderam fazer quando descobriram. Edinho virou um astro. O primeiro menino da escola a colocar um brinco. Os garotos o invejaram e as meninas adoraram, inclusive, a Marta, mas coitada, parecia que o brinco mudara até as atitudes de Ed, que esnobou a Albuquerque de maneira grosseira, mas excepcional para quem entendia o que se passava com o garoto.
O tempo passou.
Depois vieram a tatuagem, a moto, o trabalho, a esposa, o filho e a filha. Não me pergunte o que mais virá, Edinho sempre foi uma incógnita. Só posso dizer que eu juro que ele é incapaz de se lembrar disso tudo, assim como todos os outros alunos. O Ed! Quem diria?
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