Ser legal é ser chato.

Com certeza você conhece um chato, se não, é provável que você seja o tal. Mas é possível encontrar um chato em qualquer canto desse planeta. É mais fácil do que encontrar aquela tesoura quando menos se espera (como dois dias depois que você revirou a sua casa para achá-la). É como se esses amoladores andassem pela empresa com o crachá pendurado no pescoço e escrito: Chato - Almoxarifado. Esses seres irritantes nos incomodam tanto que, em alguns casos, um simples “por favor” pode nos levar a loucura.
- Pô, que cara chato! Não precisa me pedir “por favor” toda hora!
Mas caso contrário:
- Pô, que cara chato! Pensa que eu sou empregado dele, nem um “por favor”!
E, muitas vezes, é. Chefe deve ser considerado a pessoa mais aporrinhadora, azucrinante e importuna que existe, claro, com suas raras exceções.
- Filho da puta! Vai ver quando eu trabalhar pra concorrência, aí vai reconhecer meu trabalho! Vai tomar no cu, veado!
- Disse alguma coisa?
- Viável! Digo... tomar suco... é viável! Eu estava explicando para o Edu sobre uma dieta e...
Mas com chefe não se discute, se obedece. Já com outros, não tem como. Em algum momento, você perde a cabeça e descarrega toda a fúria que guardava desde o primeiro dia em que viu aquele impertinente fofocando com a secretária mais gostosa e ambos olhando para a sua cara e rindo. Óbvio que pinta algo mais do que uma invejinha. E a partir daí:
- Bom dia!
- Boa tarde!
A partir daí, você começa a pegar no pé do chato e qualquer motivo, como o atraso de cinco minutos, é motivo para querer irritá-lo também. É quando o perigo de você se tornar o rabugento se aproxima, cuidado. O bom mesmo é mantê-lo no posto, e o segredo é fazer com que os outros saibam:
- Lá vem o Vítor! Esse cara é engraçado!
- Engraçado foi a imitação que ele fez de você trabalhando!
- O que?
Confesso que esse é um plano maligno, mas infalível. O problema mesmo é quando todos descobrirem a mala que costumava trabalhar com eles e a bagagem sem alça for demitida, porque até o chefe pegou implicância daquele “bom dia com alegria” todo sorridente e disposto. E a falta que um sujeito desses faz em qualquer recinto pode ser sentida a mais de trinta andares.
Um vazio.
Um silêncio.
Uma melancolia.
- Bom dia!
- Bem e você?
Mas nada se compara com a tristeza do elevador calado. Alguns dias, até dá pra ouvir o pensamento de alguns: ah, o chato não era tão chato assim! Ou: é, o chato até que era legalzinho! E não é que era mesmo. Aquele insuportável era o suporte da felicidade no ambiente. Com ele, a alegria era diária, se não pra uns, era pra outros, e quando não pra outros, era pra uns.

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