Sou mais um apaixonado por futebol. Não como todo brasileiro é, mas como todo brasileiro deveria ser. O futebol é mais do que um esporte acirrado e emocionante que, às vezes, faz sorrir e, quase sempre, faz chorar. A meu ver, o futebol é uma brincadeira ingênua, também conhecida como molecagem. Coisa que nenhum craque aprende nos vestiários ou gramados. E muito menos nasce com. A boa molecagem se aprende com os famosos rolinhos e lençóis dados e, principalmente, tomados nos campinhos de asfalto com traves de Havaianas ou de terrão em meio a cachorros, vacas, cavalos e quero-queros. Cada OLÉ é uma lição. E, dessa maneira, jovens boleiros amadurecem. Afinal de contas, um drible nas canetas de um zagueirão num estádio lotado é coisa de gente grande. Pena que, na maioria das vezes, esse crescimento não ultrapasse as quatro linhas.
Assim é o futebol arte. Cheio de pedaladas, chaleiras, letras, bicicletas e voleios. Mas o que seria da arte sem a obra-prima? E o que seria do futebol sem o gol? O momento máximo da disputa. O auge dentro de campo. O quase orgasmo. O delírio. A explosão. O quase ataque cardíaco. O êxtase. O alívio. O princípio e o fim do jogo logo, seu juiz! O gol é único. Quem fez, sabe. Abençoados sejam aqueles que fizeram de placa. Eles não acontecerão de novo. Não da mesma maneira, não do mesmo ângulo, não em cima do mesmo goleiro, não naquela mesma e bela tarde, não diante dos mesmos 150 mil olhos que tiveram o privilégio de ver ao vivo e pertinho do lance. Por isso, vou além e digo que cada gol é um momento mágico. Os feios também. Quantos bicos, divididas, trombadas e carrinhos resultaram em gols que decidiram um campeonato? Inúmeras vezes isso aconteceu. A primeira vez que gritei É CAMPEÃO!, por exemplo, foi em 1990, num gol nada bonito de carrinho, mas de muita raça, feito pelo segundo talismã corintiano, Tupãzinho, na final do Campeonato Brasileiro contra o São Paulo, dando o primeiro título nacional ao Timão.
Devido a esse meu fascínio pela bola na rede, passei muito tempo questionando os garotos que gostariam de ser goleiros. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe do gol. Mas, com o passar dos anos, percebi a injustiça que estava cometendo com esses atletas que se jogam, se ralam e se rolam para evitar que o momento mais bonito do jogo aconteça. Não por causa do trabalho duro e suado que eles enfrentam, mas, sim, pela beleza de uma defesa extraordinária - de preferência do goleiro do nosso time. A elasticidade e a plasticidade dos arqueiros podem ser tão incríveis quanto um drible que entorta e deixa muita gente com a bunda na grama. A coragem e o reflexo também são admiráveis. E a hombridade de buscar a bola na rede depois de um levar frangão, então, nem se fala. São dignos de aplausos, mesmo enfrentando a fúria da própria torcida e gozação da adversária. De herói a vilão. De vilão a herói. Essa, que é a posição mais ingrata do futebol, merece o nosso muito obrigado. Até porque o fato de eles estarem lá para dificultar e impedir que a bola atravesse, por inteira, a linha do gol torna o lance mais respeitado e muito mais festejado.
Quanta emoção, quanto sofrimento, quanta angústia, quanta alegria. Sentimentos que descrevem bem qualquer história de amor. E assim é o futebol, apaixonante desde a linha debaixo das traves de um lado até o fundo das redes do outro. E para sempre será. Porque ele vai continuar bonito de se ver, sim. Vai continuar delicioso de se jogar, sim. Vai continuar vivo na memória de todos os futebolísticos. Afinal, todos os trilhões de bilhões de gols já marcados, desde sua criação na Inglaterra do século XIX, sejam eles feitos em grandes clássicos disputados em importantes estádios pelo mundo afora ou em simples peladas de fundo de quintal, são imortais.
